Livro de Marlene Moraes Junqueira relembra o passado de Volta Grande e Leopoldina
16/04/2018 - 7h55 em LEOPOLDINA

 

Além da proximidade geográfica entre Leopoldina e Volta Grande, suas características históricas em comum, suas belezas e potencialidades, mais um aspecto aproxima os dois municípios. Aos 80 anos de idade, completados no último dia 5 de março, a professora aposentada, pesquisadora e escritora Marlene Aparecida Moraes Junqueira nasceu em 1938 no distrito de Abaíba, em Leopoldina. Moradora de Volta Grande desde meados do século XX, ela está preparando os últimos detalhes para o lançamento do seu segundo livro: “Uma Volta Grande ao meu passado”. Dona Marlene, que nasceu no ano de 1938, abriu as portas de sua casa, o centenário casarão da Fazenda Santa Rita, onde recebeu a reportagem do Jornal O Vigilante para uma entrevista exclusiva. 

Desde nossa chegada à Fazenda Santa Rita, no município de Volta Grande identificamos ali um ambiente caprichosamente cuidado, capaz de nos remeter a um recorte do passado, um tempo imaginário, por vezes conhecido através de relatos, que foi preservado durante anos. E sob o efeito desta sensação conhecemos Dona Marlene, daquelas mulheres que nos fazem lembrar nossas mães e avós, sempre atenciosas e dispostas a esclarecerem nossas dúvidas, compartilhando com generosidade suas experiências e histórias de vida.  

Filha do casal Geraldo Lima de Moraes e Helena Azevedo de Moraes, Dona Marlene tem uma irmã, Benedita Moraes Furtado, 73 anos, que mora em Abaíba. A escritora nasceu Marlene Aparecida Azevedo Moraes em 5 de março de 1938, e após casar-se com Gabriel Nelmar Vilela Junqueira, passou a assinar Marlene Aparecida Moraes Junqueira. Em 1962 mudou-se de Abaíba para Volta Grande. O casal teve quatro filhos: Marcello, 55 anos, engenheiro, Márcio e Marcos, gêmeos, de 54 anos, ambos Veterinários, e o caçula Marnel, 50 anos de idade, Professor de Educação Física. “Eles se formaram, casaram e me deram de presente dez netos e um bisneto: André, Mariana, Luiza, João Marcos, Gabriel Augusto, Marina, Helena, Victor, Sophia, Emmanuel e o bisneto Joaquim, que são a minha razão de viver e ainda sonhar”, disse. 

De acordo com a entrevistada mais que especial, de 1949 até 1957 ela estudou em Leopoldina, no Colégio Imaculada Conceição, onde concluiu o Curso Normal. “Tudo que aprendi, foi no Colégio Imaculada. Eu devo muito a uma freira que depois que acabaram as direções de espanholas, veio uma freira brasileira, Natividade Cordeiro do Vale. Ela conseguiu me lapidar. Eu era muito rebelde”, comentou Dona Marlene, esclarecendo que durante 5 anos estudou no regime de internato e por 3 anos no externato. 

Concluído o Curso Normal, a professora Marlene foi contratada pela Campanha Nacional de Erradicação do Analfabetismo, do governo federal. Naquela ocasião o Ministro da Educação, Dr. Clóvis Salgado, era leopoldinense e muito fez pela Zona da Mata Mineira: autorizou verba para a construção e funcionamento do Colégio Nossa Senhora do Rosário das Irmãs Dominicanas em Volta Grande, reconstrução da Escola de Abaíba, entre tantos outros benefícios em prol da Educação. Em 1958 foi nomeada pelo governo estadual para a Escola “Isolada” de Abaíba, hoje Escola Municipal Francisco Pinheiro de Lacerda. Aposentou-se como professora em 1984.

“Vocês sabem o significado do nome Abaíba”, perguntou inesperadamente a professora, para em seguida responder: “Significa Casa de Noivos”.  “E como era a estrada entre Leopoldina e Abaíba naquela época?”, perguntamos. “Era ruim. A ida para Leopoldina era com um ônibus muito parecido com o atual”, respondeu com bom humor. 

Conduzindo-nos pela espaçosa casa de traços característicos das fazendas erguidas no século XIX, com janelas por todos os lados para aproveitar a luminosidade do dia, Dona Marlene apresentou-nos o acervo cultural que reuniu ao longo de décadas: Documentos, retratos de antepassados, troféus, e entre uma explicação e outra, uma pausa para mostrar o piano, com direito a uma música interpretada pela anfitriã em homenagem aos visitantes.   

Diante de uma parede com as fotos de antepassados, Dona Marlene inicia um resumo da história da família, que remonta ao ano de 1899, quando Gabriel Francisco Junqueira e Gabriela Junqueira, avós do seu esposo, chegaram do Sul de Minas e compraram a fazenda de José Leite Teixeira um dos homens mais importantes de Volta Grande, em um Leilão Com a morte de Gabriel Francisco Junqueira, o Sr. Sebastião Nelson Junqueira, sogro de D. Marlene, que havia concluído o Curso de Direito, assumiu a fazenda para ajudar a criar os irmãos, alguns deles ainda menores. Ele se casou em 1933 com Maria José Vilela Junqueira, e viveu na fazenda até sua morte em 1972. 

Retomando a visitação às dependências do casarão, com entusiasmo a educadora mostrou o espaço que foi transformado por ela em sala de aula, para atender as crianças que moravam na propriedade e vizinhanças. Era o ano de 1963. No livro que será lançado, Dona Marlene revela que chegou a ter cem alunos matriculados, com o Lar Escola funcionando em três dependências cedidas gratuitamente pelo seu proprietário e mantenedor, Dr. Sebastião Nelson Junqueira, que é o Patrono deste projeto. Sensibilizada com o esforço dos pequenos para conseguirem estudar, e diante das negativas dos órgãos públicos municipais e estaduais para a construção de um prédio, Dona Marlene, já aposentada e com mais tempo disponível para trabalhar pela construção do prédio e pela educação rural, conseguiu um empréstimo na agência do Banco do Brasil em Além Paraíba e construiu um Centro Comunitário, que acolheu a escola na própria fazenda, melhorando e muito as condições daquela região no aspecto educacional. 

Em 1968, um registro fotográfico das crianças na porta da garagem do casarão. Antes da iniciativa de Dona Marlene construir o Centro Comunitário, as aulas eram realizadas na sala de visitas, em um quarto e na garagem. 


O Livro

Ao longo dos anos, desde 1958, Dona Marlene sempre teve o cuidado de preservar documentos, fotografias, enfim, informações que pudessem ser aproveitadas algum dia, permitindo contar uma história em livro. Segundo a autora e pesquisadora, sua intenção não é comercial. “Quero dar uma contribuição para Volta Grande e também para que meus filhos saibam as origens dos nossos antepassados”, justificou a escritora. 

Antecipando parte do conteúdo da obra, que será lançada até o mês de junho deste ano, a autora – testemunha viva da história, revela que a idéia do livro surgiu há 10 anos, quando ela colocou uma propaganda na emissora de rádio em Volta Grande solicitando às pessoas que tivessem alguma história interessante sobre o município e de pessoas da comunidade, que entrassem em contato com ela, entretanto, a iniciativa praticamente não obteve resultado. Foi no trabalho incansável de “garimpagem” junto a várias residências que a pesquisadora conseguiu algum material. Ela também destacou o apoio do jovem Francisco Monteiro Junqueira, que lhe ajudou bastante através de publicações em seu jornal, “A Voz de Volta Grande”. 

Apaixonada pelo município que escolheu para viver, Dona Marlene afirmou: “Em Volta Grande havia muito altruísmo da família Rocha, da Família Pedras, do Capitão Godoy – primeiro prefeito de Volta Grande e sua esposa, Dona Tita Paixão – primeira vereadora da região. Essas histórias eu tenho todas”, revelou, antecipando também que no livro serão retratadas as famílias Junqueira e Moraes, dentre outros temas. 

Com a experiência literária de quem já lançou um livro sobre poesias, o “Poemando”, em 1991, Dona Marlene rememora: “Meu primeiro livro continha cartas de amigos, poemas feitos em minha homenagem, inclusive por ex-namorados meus”, sorriu a autora, acrescentando que “eram tempos bons os contados naquele livro, tempos nos quais o romantismo da época era um caderno de poesias, onde as pessoas escreviam endereçadas à gente.”

Uma ausência

Em 2012 um momento triste marcou a vida de Dona Marlene. Seu esposo, aos 75 anos, faleceu em um acidente automobilístico, na rodovia próxima à Fazenda Santa Rita. Com resignação e equilíbrio, apesar do duro golpe, a escritora manteve-se firme em sua caminhada, sempre disposta a apoiar as pessoas próximas. 

Agradecimentos

O Jornal O Vigilante agradece à Senhora Marlene, a quem nos referimos nesta matéria como “Dona Marlene”, pelo privilégio que nos concedeu, e por extensão, aos nossos leitores e leitoras. Escolhemos para homenageá-la, uma das frases presentes no livro de sua autoria e que revela a intensidade de sua vida: “E assim a Marlene professora e a Marlene esposa não existem mais. Ficou apenas Marlene mãe, avó, bisavó teimosa e sonhadora.”

Dona Marlene exibe o pano original de 1923 que cobre o piano da sala. 


Troféus conquistados pela Fazenda Santa Rita durante participações em Exposições Agropecuárias a partir da década de 1940. 


Momento da entrevista no qual Dona Marlene mostra com orgulho os certificados de classificação em concursos leiteiros de exposições agropecuárias, dentre elas a de Leopoldina. 


Um dos primeiros convites do Clube Social de Volta Grande: Baile da Primavera. 


“1897”, ano de fabricação do relógio vencedor de uma gincana em Além Paraíba como o mais antigo. 
 
Fonte: O Vigilante








 

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