O Brasil registrou o primeiro paciente infectado por Trichophyton indotineae, fungo altamente transmissível e resistente a antifúngicos. Trata-se do Trichophyton indotineae, um tipo de dermatófito, ou seja, um fungo que causa infecções na pele.
O paciente foi atendido em Piracicaba, no interior de São Paulo, em agosto de 2024. O homem, que já chegou infectado ao Brasil, tem 40 anos e vive em Londres. Ele havia viajado por países da Europa e da Ásia, regiões onde o fungo circula há alguns anos.
Quando o paciente recebeu o diagnóstico de infecção fúngica, iniciou o tratamento com o antifúngico terbinafina, comumente usado nesses casos, mas sem melhora. O tratamento foi ajustado com outro antifúngico, o que resultou em remissão completa, mas os sintomas voltaram após a interrupção do tratamento. Hoje, segue em tratamento, mas em Londres.
O caso foi publicado em fevereiro deste ano na revista Anais Brasileiros de Dermatologia, pela equipe da Santa Casa de São Paulo, em parceria com o Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP).
"O paciente apresentava lesões de pele extensas, com muita coceira e que não melhoravam com os tratamentos tradicionais. A médica dermatologista que o atendeu suspeitou de uma infecção incomum ao observar o aspecto das lesões, a resistência aos medicamentos prescritos, o fungo identificado no exame coletado e o histórico de viagens", explica John Veasey, um dos autores da pesquisa e coordenador do Departamento de Micologia da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SDB).
Segundo Veasey, as infecções causadas por Trichophyton indotineae costumam ser mais difíceis de tratar do que outras micoses de pele porque são lesões mais extensas, que causam bastante coceira e têm maior chance de se tornarem crônicas ou de voltarem após o uso da medicação, mesmo em pacientes saudáveis que realizam o tratamento adequado prescrito pelo dermatologista.
O fungo apresenta maior resistência aos medicamentos antifúngicos mais usados, como a terbinafina. Por isso, o tratamento costuma ser mais longo, e nem sempre há uma resposta completa logo nas primeiras tentativas, tornando o controle da infecção mais desafiador.
Até agora, há apenas um caso confirmado no Brasil, importado do exterior. Embora não haja transmissão local, a experiência de outros países indica um alto potencial de disseminação. Por isso, a vigilância e o diagnóstico precoce são essenciais para evitar que a infecção se torne um problema de saúde pública, alerta o médico e professor da Santa Casa de São Paulo.
O pesquisador afirma que não existem protocolos específicos nem ações de vigilância ativa voltadas para esse fungo no Brasil. Entre as medidas importantes para evitar a disseminação, ele cita o investimento em testes laboratoriais mais avançados, como os de biologia molecular, que ajudam a identificar o fungo com precisão, além da capacitação dos profissionais de saúde para reconhecer os casos, que muitas vezes fogem do padrão das micoses mais comuns.
"Também é essencial orientar a população sobre os riscos da automedicação, especialmente com pomadas que misturam corticoides e antifúngicos, que podem mascarar os sintomas e dificultar o tratamento."
Fonte: Site do Jornal O Tempo